terça-feira, 14 de abril de 2015
Passando agorinha pela Ponte JK, já avistando o Congresso Nacional, cruzei mais uma vez com um desses caminhões repletos de galinhas empilhadas.
Sempre que isso acontece procuro reduzir um pouco a velocidade, respirar, mentalizar uma prece pelas galinhas, pelo coração humano e sigo.
Hoje não foi diferente. Mas minha mente trabalhou um pouquinho mais.
Lembrei dos destemidos ativistas que já pararam esses carros e libertaram animais. E sonhei o quanto gostaria de fazer isso um dia.
Adiante, minha mente alcançou o destino final delas (já que eu não parei o caminhão) e nesse momento cruzei o olhar com duas delas que me observavam e lhes disse:
"Eu sei o que vai acontecer, galinhas. Não bastando a indigna vida que vocês tiveram até aqui, preparem-se para o pior."
Logo esse dia tão nublado! (Se minha morte for parecida, eu iria preferir um dia de sol)
"Quando o caminhão parar, vocês continuarão sendo pegas de qualquer jeito, viradas de cabeça pra baixo, penduradas pelo tornozelo e irão passar uma lâmina no pescoço de cada uma. Irão sangrar. Vocês verão isso acontecendo entre vocês. Com muita sorte suas vidas serão ceifadas no primeiro corte, do contrário vocês ainda acompanharão os momentos seguintes de desmonte de seus corpos."
As duas galinhas não deram nenhum piu, permaneceram me olhando.
Depois desse diálogo mental pegamos rotas diferentes. Elas seguiram pela Asa Sul, eu Asa Norte. A vida segue, ou não.
E fiquei refletindo sobre minhas escolhas, minhas prioridades, se minha passagem aqui tá valendo de alguma coisa (uma rápida crise existencial).
A fresta de alívio eu encontrei quando lembrei que não alimento mais essa engrenagem. Que nenhuma daquelas galinhas iriam voltar até mim em formato de comida, mas "não é comida, é violência".
Há distância entre quem mata e quem come? É tão simples parar tudo isso, pois basta que cada um faça sua parte, somos os consumidores finais, quem injeta dinheiro nessa indústria. Se parar de financiar, para de existir.
Ah, mas é muito difícil! Pra quem? Pra você, pra mim ou pra galinha?
Sou grata a todos amigos e amigas que me inspiram e me fortalecem nessa caminhada. Pessoas que abriram mão de suas zonas de conforto porque não querem mais compactuar desse sistema de opressão e violência.
Sou grata aos que não pensam igual, mas se dão o trabalho de me ouvir.
Conheço as desculpas (já estive nesse lugar) conheço o medo, conheço o desconforto social. Mas isso tudo é bem menos importante do que o destino de se ter a garganta cortada por uma lâmina. Nada justifica.
Esse não é um post moralista, é apenas um convite pra que caminhões como esse parem de circular.
Porque se tornar vegano não é subir o último degrau de uma escada que leva a perfeição. Absolutamente. Mas sem dúvida é um passo importante rumo a um mundo mais justo, com maior compaixão.
E é muito mais legal quando caminhamos juntos. Na real, eu não teria conseguido sozinha. Depois ficou tudo mais fácil, leve e até divertido!
Grata pela escuta.
Sigamos!
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Mama e maninho, esse texto não é nenhuma novidade e isso me desanima em alguma medida, por saber que mais uma vez estou aqui tomando o tempo de vocês com minhas eternas elucubrações e um certo receio de ser mais do mesmo. Mas sempre quando eu me vejo meio assim sufocada é em vocês que penso, minha família primeira, meu esteio maior.
Acabo de voltar de mais um retiro, desses sempre tão renovadores, tão intensos e significativos pra mim. O chamado pela Terra está cada dia mais forte, mais claro, mais difícil de adiar.
É que eu não acredito mais nesse mundo colapsado e falido. Nós tentamos, acredito de verdade que nos esforçamos, mas é hora de admitirmos os erros e construir uma nova humanidade, o tempo de regeneração não será após nosso desencarne. A morte nada mais é do que uma curva que fazemos numa estrada.
A violência, a fome, as desigualdades e injustiças sociais a incoerência da escassez em nossa mãe terra sempre tão abundante. O acúmulo de dinheiro, a opressão, a destruição da natureza. A corrupção, a propriedade privada... e tantas, tantas outras coisas que fizemos errado... Não, não quero mais me enganar, acreditar que isso tudo está tudo bem, porque não está.
As pessoas estão adoecidas, tomam medicamentos pra conseguir sorrir, pra conseguir dormir, pra conseguir comer ou pra parar de comer. Estão isoladas, se agridem, acham natural assistir noticiários de sangue. Estão sem tempo. Vários valores invertidos. Mais novos desrespeitando os mais velhos. Estado de nervos constante. Trabalhos remunerados vazios de sentido.
Eu sei que não sou apenas eu que percebo isso, e imagino que vocês dois inclusive concordam comigo. Mas é que eu não consigo mais, sabe. E eu sei também que vocês me compreendem e inclusive me apoiam. Sempre foi assim. É só a eterna vontade e necessidade de compartilhar meus processos. Sou tão grata a vocês, mas tão grata. Desejo tanto que Deus me conceda a oportunidade de permanecer ao lado de vocês por minha eternidade.
Família, eu não sei o dia de amanhã. Estou tentando dar conta do dia de hoje. Preciso assumir meu papel espiritual em minha jornada. Esse chamado vem desde muito cedo e vocês dois que me conhecem sabem bem disso. Foi com 12 para 13 anos que fiz minha primeira investida espiritual ao me matricular na catequese da Igreja São Paulo Apóstolo e logo em seguida na evangelização do André Luiz, desde meus primeiros passos independentes, foi esse o caminho que escolhi e nunca mais parei.
Minhas escolhas gritam meus anseios... desde “Palhaçotas Cambalhotas” onde acreditávamos que seria possível transformar o mundo em arte e magia. Depois veio minha escolha pela graduação em serviço social, que essencialmente é um curso que luta pela garantia de direitos das minorias sociais. Cheguei ao veganismo, com a certeza de que opressão contra os animais é a mais enraizada e antiga em nossa humanidade, igualmente disposta a não mais compactuar disso. E no Coletivo Mangueiral... a luta comunitária por um parque como símbolo de preservação de Gaia. E outras tantas pequenas coisas que sempre me deixaram, como vocês sempre disseram, cheia de atividades. Sou assim. Cada qual funciona de um jeito e esse é o meu... pelo menos até aqui. Na verdade acho mesmo que se não fosse a insegurança que ainda carrego em meu espírito eu já teria me jogado muito mais. Tudo bem, aprendendo sempre.
Eu sinto amor. Sinto plenitude. Sinto saúde, sinto vida. E todas as coisas ruins acima que descrevi tem me sufocado um tanto mais do que eu gostaria. Respiro fundo pra dar conta de equacionar as obrigações do sistema, os compromissos assumidos, principalmente de ordem financeira. Tudo são desafios e estou aprendendo em cada detalhe, mas é hora de dar outro passo.
Preciso trabalhar com cura, com a amorosidade, diretamente. Preciso conectar-me de vez com a abundância que há no mundo. Vibrar nessa frequência pra servir. Acolher nossos irmãos que estão cansados. Aprender a cultivar, a cativar, a cantar, a dançar como nossos índios, respeitando a reverenciando a natureza.
Eu e a Sister estamos aprofundando nessa caminhada. Sabemos que temos um compromisso juntas e estamos olhando com coragem pra esse caminho. Cultuamos imagens, acendemos velas e incensos, pitamos tabaco, cantamos e louvamos a natureza junto com pretos e pretas velhas e caboclos e outros seres de luz.
Peço sua benção mãezinha, sempre, que olhe por mim, que reze por mim. Que vigie sempre meus passos, que me alerte nos descuidos. Eu reverencio seu coração, sua fertilidade, sua maternidade, reverencio seu espírito. Eu agradeço a Deus por conceder a mim a oportunidade de ser sua filha.
Maninho, é difícil pra mim falar de ti... Porque você é o homem mais lindo que conheço. O Luli em minha vida é "um amor tão puro que ainda nem sabe a força que tem", espero um dia retribuir esse presente à altura e acho que isso só será possível se eu te der um sobrinho, assim como você me deu. Gratidão por me aceitar como sua irmã.
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